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Este PSD é democrata?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.16

 

 

 

As vozes dissonantes devem fazer-se ouvir de vez em quando. As vozes que destoam das vozes monocórdicas dos comentadores de serviço na televisão.

 

Vou fixar-me apenas numa opinião de um adolescente tardio (= trintão imaturo): O que me irrita na esquerda é que pensam que a democracia é apenas deles. Eu nasci com o 25 de Abril e considero que a democracia também é minha. A democracia também é da direita.

A ideia era mais ou menos esta: este PSD é democrata. O menino mimado não percebia como era possível apelidarem o PSD de não democrata. Alguém teve de lhe lembrar que o governo anterior governou sempre à revelia da Constituição.

 

Aqui analisei muitas vezes o governo anterior, a sua cultura de base e até a sua estética comportamental. E apelidei-o de fascizóide. Estava lá tudo: humilhação, intimidação, bullying político. 

De facto, podemos imaginar uma linha contínua para classificar o autoritarismo, do autocrático à tirania. Mas será um exercício interessante? As classificações políticas apenas servem para nos distrair do essencial.

 

A democracia é um contrato entre os gestores do poder e os cidadãos, vive em equilíbrio constante, pesa tudo no fiel da balança, é responsável e responde pelas suas decisões, é aberto e transparente. A Constituição é a lei comum, as regras da gestão política. A Assembleia é o espaço onde esse equilíbrio é exercitado. O governo responde perante a Assembleia. O Presidente é uma garantia de que este equilíbrio é alcançado na gestão política do governo e que se respeita a lei comum.

 

O governo anterior só conseguiu atropelar a democracia, depois de a amolgar e adulterar, porque se refugiou no empréstimo, na dívida e na troika. Essa era a sua justificação. 

As desigualdades sociais aumentaram, a classe média foi atirada para a pobreza, os jovens para a emigração. Mas isto toda a gente já sabe.

 

Incomodemos ou não as vozes monocórdicas de serviço, é preciso desenhar com clareza as linhas gerais da democracia. As crianças e os adolescentes precisam de saber, com exemplos concretos da vida real, o que é a democracia, para saberem detectar os desvios e poderem votar de olhos abertos.

 

 

publicado às 08:07

A dupla responsabilidade da esquerda actual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.05.16

 

 

 

A dupla responsabilidade da esquerda actual:

1 - governar o país dentro dos constrangimentos que nos condicionam a economia, enfrentando os desafios que a CE irá colocar à nossa frente;

2 - livrar-nos deste PSD e deste CDS pois ninguém lhe perdoaria colocar em risco a actual maioria de esquerda e entregar-nos nas mãos dessas personagens e da sua cultura obsoleta.


Quando a comunicação social dá voz a quem só quer destruir o actual equilíbrio possível no poder para nos pôr o pé em cima de novo, percebemos que não podemos confiar em tudo o que vemos e ouvimos na televisão.


Felizmente temos um Presidente inteligente e perspicaz que entende que a democracia respira no movimento - negociações e acordos - e no equilíbrio - compromissos e decisões.


E a democracia ainda é a melhor fórmula para uma organização social, política e económica saudável, dinâmica e equilibrada.

 

 

Post publicado em A Vida na Terra.

 

 

publicado às 10:51

Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.03.16

A vida por vezes surpreende-nos, situações e circunstâncias que não conseguimos explicar. Anos mais tarde lembramos um olhar, uma frase, uma entoação, e a situação adquire um novo sentido e importância.

 

Antes procurava a lógica e o significado de tudo, não descansava enquanto não conseguisse descobrir uma explicação, uma interpretação. Agora é a situação que se revela a pouco e pouco, como um ecrã sensível e interactivo. É assim na vida pessoal, na vida da comunidade mais próxima e nas notícias que chegam diariamente do país e do mundo pelos diversos meios.

 

É por isso que já não consigo ouvir os comentários políticos, por exemplo. A maior parte dessas frases pomposas não faz sentido na nova cultura política que já nos rodeia. E se não valem como interpretação da realidade actual, também não valem como narrativa que se quer substituir à realidade.

É por isso também que já não me interessam as ideologias políticas. O PSD redescobriu a social democracia? Risível. O CDS redescobriu a sua alma democrata cristã? Risível. Até o PAN que está a dar os primeiros passos na experiência dos debates na AR se revela mais credível porque definiu e manteve a sua marca registada. 

 

Quais são agora as nossas prioridades como cidadãos deste país? Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo. Refiro-me ao orçamento, à economia, ao equilíbrio de poderes social e económico, à fiscalização da actividade financeira. Tudo o que determinará a relação de poder com a CE e o Eurogrupo.

 

Para já, as circunstâncias são-nos favoráveis, as principais instituições da gestão política colectiva, governo e Presidência, revelam a inteligência e a cultura do séc. XXI, da colaboração. 

A nossa auto-estima como país também levou uma refrescadela, o que muito ajuda. Os acontecimentos felizes que para isso contribuíram foram: a visita de Bento XVI em Maio de 2010; o perfil e o papel do Papa Francisco; os resultados das últimas legislativas que permitiram uma nova solução governativa e a candidatura de Marcelo à presidência.

Aproveitemos bem estas circunstâncias de modo a estarmos preparados para lidar com os desafios que valem a pena.

 

 

 Post publicado n' A Vida na Terra

 

 

publicado às 21:35

OE 2016: uns rogam-lhe pragas, a maioria faz figas para que funcione

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.02.16

 

É com perplexidade que ouço várias personalidades rogar pragas ao OE 2016. Uma coisa é apresentar argumentos fundamentados, outra coisa é destruir genericamente o orçamento, embrulhá-lo em considerações maldosas como "austeridade socialista". 

Os cidadãos estão certamente do outro lado, a fazer figas para que o OE funcione, que não sejam necessárias mais garantias a Bruxelas, ou se forem, que não recaiam nas mesmas vítimas.

 

Esta é a diferença entre cultura de classe e cultura democrática:

- cultura de classe: ver apenas o seu grupo de referência e defender privilégios adquiridos, ser incapaz de colocar à frente dos seus interesses o interesse mais vasto e as priotidades, as situações de emergência, os mais frágeis da grande comunidade;

- cultura democrática: ver o grande plano, os cidadãos como um todo, uma grande comunidade, e tentar encontrar um equilíbrio, conseguindo ver as prioridades, as situações de emergência, os mais frágeis.

 

Reparem no seguinte exemplo de cultura de classe: o ex-PM disse num discurso recente, quando não há dinheiro não há social-democracia... há austeridade... 

Numa cultura democrática é precisamente nas situações precárias, em que não há dinheiro, que se protegem os mais frágeis, procurando evitar mais fragilidades (desemprego, subemprego, etc.), distribuindo, de forma equilibrada, cortes e tesouradas nos rendimentos, e não apenas nos rendimentos do trabalho.

 

A perspectiva é completamente diferente conforme a cultura de base com que se vê a responsabilidade governativa. Para a cultura de classe, ser PM é um estatuto (um posto, um emprego), para a cultura democrática é um serviço (uma missão). E o mesmo para a capacidade de esclarecer, de comunicar, de negociar, próprias da cultura democrática.

Pela primeira vez em muitos anos, temos um PM que fala directamente aos cidadãos (a ideia de esclarecer em vídeo as dúvidas sobre o OE 2016 foi muito inteligente) e que sabe negociar (colocando as várias partes a conversar).

Também pela primeira vez em muitos anos temos um Presidente eleito cujos trunfos são precisamente comunicar e negociar, e que inspirará o país a integrar a cultura democrática, largando de vez os tiques de um passado bafiento.  

 

 

 

 

Post publicado n' As Coisas Essenciais.

 

 

publicado às 16:08

Aqui iniciei a minha análise do perfil de Presidente que considerei ser o mais adequado à nossa situação actual.

Aqui revelei a minha alegria (e um certo alívio) com a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.

E aqui comecei a analisar a campanha eleitoral, os debates na televisão, o comportamento dos candidatos.

 

E agora vamos então à forma de distinguir uma personagem de uma pessoa real:

1. A interacção: quando estamos perante uma personagem não nos sentimos à vontade, sente-se um espaço entre nós, uma barreira invisível, o olhar não é caloroso, acolhedor, não nos fita nem nos envolve, não há empatia nem proximidade; quando estamos perante uma pessoa real sentimos-nos imediatamente à vontade, o olhar sorri e acolhe-nos, há uma empatia e proximidade, identificamo-la como um de nós, como um velho amigo que voltamos a encontrar.

2. A mensagem: quando ouvimos a mensagem de uma personagem não há ressonância com a nossa vida, com o nosso quotidiano, não é para nós que está a falar, não há verdadeira comunicação, é como um actor num palco; quando ouvimos uma pessoa real falar sentimos uma ressonância com a nossa vida do dia a dia, fala connosco, há empatia e comunicação.

3. Os apoiantes: o grupo de suporte e de referância diz muito de uma personagem pois, tratando-se a personagem de uma construção, é o grupo que na realidade exerce influência e poder, a personagem molda-se a essa influência e poder, como um actor se molda ao guião, não há pensamento próprio; a pessoa real pode ter apoiantes mas não são eles que definem o seu pensamento, pode ouvi-los e trocar ideias, mas é autónomo.

 

E pronto, espero ter descrito as principais diferenças entre os candidatos. Não se trata, portanto, de ser de esquerda ou de direita, mas sim de perfil e de papel.

A escolha será entre uma personagem e uma pessoa real, qual é que preferem?

A escolha será entre a ambição de mais poder e o equilíbrio de poderes.

A escolha será entre o poder dos bastidores e o poder do seu exercício.

 

 

 

 

Post publicado n' As Coisas Eseenciais.

 

 

publicado às 17:09

Eleições presidenciais 2016

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.01.16

Tenho acompanhado a maior parte dos debates televisivos com os candidatos a Presidente. Há quem diga que os debates são muito maçadores e que não vão alterar a escolha dos eleitores. No meu caso, têm sido muito divertidos e esclarecedores.

Há perfis para todos os gostos. E mesmo que saibamos que a tendência de qualquer candidato é dar a melhor imagem de si mesmo, é impossível representar todo o tempo. Há momentos fugidios em que se revelam na sua autenticidade. É preciso estar muito atento para os apanhar.

 

Aqui já tinha referido qual o perfil ideal de Presidente, sobretudo na actual situação do país. Portanto, no meu caso, é só perceber quem corresponde ao perfil que aí considerei. Interessante é perceber que uma pessoa pode ser perfeita para um lugar numa determinada circunstância. Sim, é Marcelo Rebelo de Sousa

 

Surpresas positivas dos debates: Maria de Belém e Marisa Matias, as duas mulheres. Maria de Belém pela sensatez e organização. Marisa Matias pela sua vivacidade e coragem.

Maria de Belém daria uma boa Presidente numa situação estabilizada do país, o país mais animado, mais alegre, mais optimista. Não é o caso.

Marisa Matias pode vir a ser uma boa Presidente daqui a alguns anos. E, do mesmo modo, com o país numa situação económica e social normalizada. Esperemos que isso venha a ser o nosso futuro daqui a uns anos. 

 

Prémio de consolação: mesmo considerando que há candidatos com mau feitio e um ou outro mesmo torcidinho, os nossos comportam-se de um modo muito mais civilizado do que os candidatos americanos.

 

Sim, os trunfos de Marcelo são a força do sorriso e o afecto. Marcelo, o Conciliador.

 

 

 

 

Post publicado n' As Coisas Essenciais.

 

 

publicado às 17:12

O governo soma e segue atropelando todos os mecanismos democráticos, a certidão da nossa organização política, as regras do jogo, os representantes partidários e o representante arbitral digamos assim.

É o desequilíbrio político à Estado Novo, manda o Chefe do Conselho. Bem, na verdade, não é assim, manda a troika, a CE, o BCE, o FMI, a Alemanha, a alta finança. O governo é apenas um gabinete da troika.

 

Aliás, o governo-troika PSD/CDS conseguiu, pelos vistos, ir além do exigido, ir além da troika, o que revela o seu profundo envolvimento e empenho. As pessoas já perceberam isso. O governo-troika continuará a seguir este caminho de buldozer sem controle apesar das avaliações do tribunal constitucional, dos debates histéricos no parlamento e perante a passividade e serenidade do Presidente.

O PSD e o CDS sabem que não têm qualquer hipótese de ganhar as próximas legislativas. Qual é o povo que se quer suicidar?

O PSD e o CDS sabem que país teremos em 2015. Sabem porque o planearam e programaram. É o país da "nova normalidade".

 

Ontem dei comigo a ver o Política Mesmo, a parte de Manuela Ferreira Leite, e depois a Prova dos 9 na TVI.

Não consegui, por motivos de saúde mental, ouvir a entrevista da ministra das Finanças, a repetição do discurso tecnocrático de Gaspar faz mal à saúde pública, mas pelo que ouvi a Fernando Rosas e a Francisco Assis, a "nova normalidade" permitiu-me confirmar a marca registada deste governo-troika.

 

"Nova normalidade", pois. Para quem? Para a grande maioria dos portugueses.

Como Francisco Assis referiu: pobrezinhos e alegres. Tal como no salazarismo.

Fernando Rosas lembrou a história depois de 29, da grande depressão.

Paulo Rangel, esse, pareceu-me bastante constrangido e em conflito interno. Afinal é culto, sabe história e política, e é especialista na constituição. Como conseguirá ele, o da moção "Libertar o Futuro", conviver com a "nova normalidade"? De um lado, tem a missão impossível de acordar as consciências tecnocratas e do outro, um lugar na Europa ou em instâncias internacionais. Afinal, estes lugares são apenas trampolins para lugares melhores.

 

E é isso que veremos também acontecer aos rostos da austeridade Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas: um lugarzinho na estratosfera político-financeira europeia e mundial. Há sempre um império financeiro, uma fundação, uma organização, uma multinacional à espera. Tal como Constâncio foi catapultado ao BCE depois da ausência de supervisão bancária, ou Gaspar voltou à alta finança depois dos cortes a torto e a direito e sempre nos mesmos, também os principais rostos da austeridade terão um lugarzinho à sua espera. Afinal, não foram poucos os serviços prestados, para que alguns poucos tenham o lugarzinho no céu é preciso deixar o país no inferno... (Faz-nos falta um Gil Vicente para retratar tudo isto...)

 

 

Já agora, esse país que nos desenharam sem nos pedir a opinião, ja tem uma marcha popular ou mesmo um fado? Não será mais ou menos assim?

 

 

 

Cá vamos cantando e rindo

alegres na nossa pobreza

O destino nacional

é a delicadeza

com certeza

 

 

Somos o país da sardinha assada

da arrufada

do azeite

e do vinho tinto

A nossa marca é a gastronomia

e a bonomia

 

Temos o clima adequado

ao mercado

e o perfil profissional

um vosso criado

 

Admiramos e veneramos

os ricos e famosos

os poderosos

e vivemos para agradar

aos nossos investidores

e benfeitores

 

Cá vamos cantando e rindo

na nossa alegre pobreza

com certeza

 

 

 

Como vêem, isto ainda é apenas um esboço, é preciso melhorá-lo, musicá-lo, depois até se pode encomendar uns figurantes para fazer um vídeo, tal como aquele que o Professor Marcelo fez para os alemães mas com esta "nova normalidade".

Embora não me agrade muito a perspectiva de país conformado e mediano do Professor Marcelo, a sua visão de país sempre era melhor do que esta "nova normalidade". A propósito, que ninguém fique preocupado com o destino do Professor Marcelo, porque todos percebemos que ele tem popularidade para ganhar umas presidenciais, foi por isso que lhe pisaram os calos. Ao acusar o toque ganhou alguns pontos na corrida. 

 

 

 

publicado às 12:45

O Presidente decidiu não arriscar mais atribulações no país. O acordo apresentado pelos partidos da coligação no governo não lhe garantia essa estabilidade. O país não podia ficar cativo de um governo que não lhe dava essa garantia. A sua decisão envolve os 3 partidos que assinaram o memorando, um compromisso de salvação nacional, e fixou-lhes um prazo (assim como à troika) para receberem o seu prémio (poderem marcar as eleições antecipadas). Concordo.

Aqui o Presidente agarra o PS pelo braço e lembra-lhe que não pode fugir à sua parte da responsabilidade pela situação do país. O PS, que tinha apresentado há dois meses um novo rumo, que se iria abrir à colaboração com todas as forças políticas, representantes da concertação social, movimentos cívicos, etc., à primeira sacudidela pede eleições, antes mesmo de analisar as consequências dessa opção na fase de avaliações da troika.

 

Mas a análise do Presidente também lembra aos partidos em geral que a sua postura será avaliada pelos cidadãos. De qualquer modo, a reacção destes partidos foi a mais célere: o PCP, o partido mais previsível, pede eleições e mudar de política; o BE, o partido mais aventureiro, também pede eleições, talvez porque aparentemente não tenha nada a perder, afinal baixou drasticamente nas últimas eleições e agora teria mais votos; os Verdes mantêm o mesmo registo de sempre e pedem eleições.

 

Agora vejamos:

- o Presidente está a tentar segurar as pontas soltas da inabilidade do PM ao não comprometer o PS, logo desde o início, que aproveitou para se descolar da assinatura do memorando, independentemente das alterações posteriores, e de não ter sabido gerir o equilíbrio de forças na coligação. O que vimos nestes 2 anos foi um PM a escudar-se por trás de um técnico que atraiu a revolta generalizada;

- o Presidente sabe que as eleições apenas mudarão a composição destes 3 partidos na fórmula governativa, apenas muda a sua relação de forças. Se não for PSD-CDS, será PS-CDS. Nem sequer se prevê a possibilidade de um entendimento dos 3 juntos! O que revela que os partidos não aprenderam nada, não evoluíram, não se adaptaram aos desafios, mas sobretudo não perceberam nada! Dizem que governar em coligação não é uma tradição portuguesa (!) Esta é essa oportunidade. Nem precisam de andar de braço dado, é só encontrar uma forma de encontrar um compromisso nas questões fundamentais;

- o Presidente sabe que cabe à Assembleia da República resolver a fórmula governativa. É para aí que está a dirigir os holofotes e é aí que está a colocar a grande responsabilidade. É tudo o que os partidos actuais e a sua cultura de base não querem! Responsabilidade de levar o país até um prazo que nos interessa fixar, a saída da troika, o final da intervenção externa, é muito mais difícil do que discursar na AR. Mesmo que se coloquem na posição irredutível de não aceitar a troika nem as suas exigências, têm de explicar aos cidadãos as consequências dessa opção;

- o Presidente sabe que tem de falar para a Europa, o seu discurso tentou tranquilizar os credores ao fixar um prazo, até à saída da troika evitarei as incertezas políticas mas espero que contribuam com a vossa parte e que facilitem a vida ao país, afinal o governo foi o bom aluno e os cidadãos portugueses já colaboraram com os seus sacrifícios. Embora todos saibam, cidadãos incluídos, que esse prazo apenas corresponde ao fim das visitas periódicas dos 3 técnicos estrangeiros, pois continuaremos a precisar das rodinhas de apoio na bicicleta até nos equilibrarmos de novo, esse prazo é fundamental, não apenas como mensagem à troika mas também como marco psicológico para o país.

 

 

Ontem ficou exposta a crise do sistema partidário que revela uma crise cultural, de valores, de princípios, quando vimos o seu embaraço, a sua hesitação, em reagir à decisão do Presidente. Os danos foram geridos atabalhoadamente pelos comentadores de serviço nas televisões. Gostaria de saber se a maioria dos comentadores domina bem o português, porque pela diversiade de interpretações do discurso do Presidente, ou revelam necessidade urgente de revisão da interpretação de textos e da gramática ou então desconfio que se trata de pura manipulação informativa.

Os partidos que ficaram mais bloqueados: PS, em primeiro lugar, PSD, em segundo. Muito mais profissional foi a resposta do CDS, apesar de tudo. Acolheram a decisão do Presidente que compreendem.

 

Para já, os cidadãos perceberam que:

- os partidos são intermediários de interesses e não representam o país entendido como o colectivo, os cidadãos. O Estado, que deveria ser gerido com todo o respeito, é por eles percebido como a gestão do poder e de influência. O PS e o PSD não prestam contas aos cidadãos e, pelo que se percebe até neste episódio recente das divergências do ministro das Finanças do anterior governo com a actual ministra das Finanças, ninguém diz a verdade em questões como financiamento bancário através de mecanismos de alto risco;

- os cidadãos sabem que, no fundo, as eleições não vão mudar este estado de coisas, a cultura dos partidos, os interesses que defendem, a sua cada vez menor legitimidade pela perda de confiança dos eleitores. Sabem que o PS não esclareceu sequer como levou o país à falência, mesmo que venha o ex-PM falar semanalmente à televisão e o PSD não esclarece os cidadãos sobre a real dimensão do Estado e porque decidiu cortar no mais fraco, nos cidadãos;

- não se sentiu nenhuma demonstração de entusiasmo especial pelos cidadãos quanto a eleições antecipadas, mas os partidos não revelaram sensibilidade para ler esses sinais dos tempos;

- vir falar de democracia quando os cidadãos não têm acesso à informação que conta é risível. Na ausência de transparência e de justiça,  e com o aumento das desigualdades sociais, onde é que está a democracia?

 

A minha previsão:

- Seguro, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PS, terá de revelar sentido de responsabilidade e pegar novamente no dossier das propostas, afinal o Presidente já lhe deu uma motivação: se os 3 partidos que assinaram o memorando levarem o país a bom porto até ao prazo que nos importa fixar, a saída da troika e fim do programa de intervenção externa, em Junho de 2014, poderão reunir e definir o calendário das eleições antecipadas;

- Passos, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PSD (e só espero que não nos surja Rui Rio como já ouvi algures), altera a sua postura de entrincheirado a defender a sua posição numa batalha alucinada, arranja um treinador em negociação, e faz de anfitrião dos outros 2;

- Portas não terá outro remédio senão alinhar no compromisso, afinal dizem que é um bom negociador. Além disso, a 3 a pressão sobre o CDS é menor, além de que cabe aos 2 maiores partidos a partilha da maior responsabilidade pelo desastre colectivo.

 

Dizem-nos que o Presidente agravou a crise (!) porque ninguém quer assumir a sua responsabilidade e querem continuar a viver no melhor de dois mundos: imunes à profunda mudança cultural que se avizinha, imunes à contenção de despesa, imunes à responsabilização, imunes a prestar contas aos cidadãos.

O PSD justificou o aumento de impostos e depois os cortes drásticos com a mensagem moralista vivemos acima das nossas possibilidades. Em certos momentos até o CDS se colou a este moralismo preconceituoso e injusto. Mas ontem ouvi, a um comentador mais experiente da vida global num debate na RTPN, que a maior responsabilidade pelo que nos aconteceu na Europa se deve ao BCE. Concordo. E também disse: só não vê quem não quer ver.

 

 

 

 

publicado às 13:15

Deste acordo entre PSD e CDS que foi decidico ao mais alto nível e condicionado por exigências claras, e de novo temos de olhar para os bastidores do teatro político, começa a emergir um verdadeiro governo de salvação nacional.

 

O PS, que deveria agora estar envolvido na fórmula encontrada, pois participou no descalabro financeiro e ainda não esclareceu devidamente os cidadãos, revela agora total inabilidade política ao vir para a praça pedir eleições em vez de aguardar pela decisão do Presidente. Por um lado, esta revelação da sua incapacidade para assumir tão grande responsabilidade acaba por ser um dado útil, pois evitam-se mais ilusões de um novo rumo. Além disso, quem não está traumatizado com os rostos do PS que acompanharam o anterior PM? Voltaram a passear-se até ao Rato a pedir sangue. E além disso ainda, alguém ficou convencido com a entrevista de Teixeira dos Santos?

 

O PCP e o BE aguentaram temperaturas impróprias para a saúde para se passear nas ruas de Lisboa e segurar bandeiras coloridas a pedir a queda do governo, antes mesmo de falar com o Presidente.

 

 

Salvação nacional, porquê? Porque a nossa situação actual é mais grave do que o PS e o PSD nos quiseram revelar. Aliás, os cidadãos deveriam exigir-lhes a informação que conta para as suas vidas e as dos seus filhos e netos. Também ajudaria à credibilidade destes dois partidos que a sua gestão danosa e/ou fraudulenta fosse devidamente responsabilizada.

Salvação nacional também, porque a troika é implacável, Barroso é implacável, a agenda europeia actual é implacável, a Alemanha ainda não se definiu, a França está assustada, a Espanha está em pânico, etc. etc. etc.

Salvação nacional ainda, porque tanto o PSD como o CDS sacrificaram os seus líderes que terão de desempenhar um papel, definido em Bruxelas e no FMI, no filme de terror A Reforma do Estado, cabendo a Portas a difícil tarefa de negociar com a troika e com os parceiros sociais, num equilíbrio permanente entre a economia e os cortes, a prestação de serviços públicos e a pressão dos privados, a sobrevivência das pessoas concretas e os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros.

E finalmente de salvação nacional pois também o CDS é sacrificado ao PSD, ao ser co-responsabilizado na gestão política de Passos e da gestão financeira de Gaspar que pioraram gravemente a situação do país. A garantia da estabilidade desta relação é dada pela lista conjunta às eleições europeias.

 

Surpreendentemente, não se vislumbra fórmula melhor. Aliás, como TPC lançaria hoje este desafio de encontrar fórmula melhor.

 

Mesmo que a tarefa seja mais própria de um super-herói e Portas tenha disso consciência, talvez seja o único que reúne as qualidades necessárias que não encontraríamos facilmente noutro político actual, não apenas as intrínsecas (negociação, organização, visão de grande plano, conhecimento das contingências culturais e históricas), mas também as conjunturais (foi forçado por exigências de contrato a protagonizar o papel de protagonista no filme A Reforma do Estado produzido pela troika).

 

 

 

publicado às 11:44

Confirma-se que alguma coisa de muito errado está a acontecer na orientação e intervenção da troika no país, de braço dado com o governo híbrido. Mas não é apenas ao nível das instituições internacionais, é cá dentro também. Do nível macro ao micro a desorientação é total.

Alguns factos que se juntam para nos inquietar:

- o Presidente critica a CE e sugere que o FMI saia da troika, mas refere-se às condições de manutenção do governo como existindo coesão social no país;

- o FMI contradiz-se a toda a hora, um relatório assume erros de previsão (?) relativamente à Grécia, mas no papelinho que o governo assinou sem dizer nada ao país a orientação é no sentido de acelerar os cortes dos tais 4 mil milhões (!) apesar de serem de difícil implementação, criarem instabilidade política e social e poderem vir a colidir com as leis do país (!!) além de agravarem a recessão e nos afastarem do acesso aos mercados (!!!) O elemento do FMI na troika que nos visita reagiu com nervosismo e irritação a duas questões: a opinião do Presidente para que o FMI saia da troika e as semelhanças com a situação da Grécia (!?);

- a CE promete criar programas de apoio às pequenas e médias empresas (se ainda existirem algumas depois destes cortes todos), com a ajuda de investimento alemão;

- na venda das jóias da coroa o processo dos CTT surge-nos como mais do que irregular;

- o governo decidiu adiar o pagamento do subsídio de férias para Novembro (de repente não há dinheiro disponível);

- o governo apressa para Setembro a data das eleições autárquicas (para controlar os danos pois talvez não sobreviva a Outubro ou Novembro);

- o ministro da Educação resolve entrar em rota de colisão com os professores e com a Escola Pública, revelando um discurso e comportamento próprios do tempo do Estado Novo;

- um cidadão português é multado por desabafar numa rua de Elvas quando passa o Presidente: Vai mas é trabalhar... estou a ser roubado todos os dias, o que gerou um movimento solidário que quer dar uma ajuda no pagamento da dita: 1.300 euros, se bem percebi.

 

A quem pode recorrer a sociedade civil nestes tempos de grande confusão geral?

O Presidente vive num mundo paralelo em que há coesão social e não gosta de desabafos dos cidadãos;

A Assembleia da República também não gosta de desabafos e os cidadãos não têm lá um representante directo;

O Provedor de Justiça não deve ter mãos a medir;

O Procurador Geral da República não tem meios nem tem como prioridade fiscalizar o que o governo anda a fazer;

O Tribunal de Contas só dá pareceres e produz relatórios;

A Comunicação Social só reproduz as notícias que lhe dão já preparadas, não investiga, não analisa, não reflecte.

 

A sociedade civil tem de estar mais atenta e vigilante para se poder defender deste desvario total em que todos lhe escondem a realidade, a verdade, os factos, as prioridades do governo, a sua agenda, os verdadeiros compromissos com a troika, os negócios escondidos, as excepções, etc.

 

 

É muito triste ver as Notícias hoje em dia e ter de juntar as peças de um puzzle que é muito pior do que aquele que nos revelam. O puzzle ainda vai a meio, ainda tem buracos por preencher, mas já se vêem alguns padrões:

 

1) o governo sabe que não irá sobreviver ao desastre económico que se anuncia, às confirmações das piores previsões e de uma recessão muito mais profunda e prolongada, e quer evitar ficar penalizado nas autárquicas (impossível) e ainda quer mais, sair de cena com a imagem de patriota e de ter servido o país;

 

2 ) o governo colocou-nos a caminhar no sentido da Grécia, de braço dado com a troika, apesar de nos querer colar à Irlanda e de nos iludir com o acesso aos mercados e a saída da troika em 2014;

 

3) a agenda hoje é clara: desvalorização do valor do trabalho, economia ao serviço da finança e dos grandes grupos económicos, opacidade e desinformação em relação aos grandes negócios do Estado, desmantelar os serviços públicos, manter o conformismo dos cidadãos através do medo e da intimidação.

 

 

Fala-se na crise do regime e no envolvimento dos partidos políticos, da Assembleia da República e as incompatibilidades éticas e profissionais, dos interesses dos grupos de influência, etc., mas nada se faz.

Os cidadãos não confiam nos políticos em geral.

Entrámos no impasse da alternância, tal como o Rotativismo no séc. XIX.

 

Como é que a sociedade civil pode intervir de forma construtiva se não tem mecanismos a não ser protestos de rua (e os inorgânicos são os que têm mais impacto), as Petições, as greves (para os activos, porque os inactivos e os reformados nem esse recurso têm), e pouco mais.

Os cidadãos só têm visibilidade e importância para os políticos em campanha eleitoral. Só nesses momentos precisam do voto dos eleitores. Depois viram-lhes as costas e fazem o que sempre fizeram: tratar da sua vidinha. 

As eleições são talvez os únicos momentos em que os cidadãos têm algum poder relativo. Seria bom reflectir nisto.

 

 

Hoje é dia de Santo António. Desde criança que o associo a causas perdidas e a milagres, numa oração muito antiga, o Responso a Santo António, em que resgata a vida, a saúde, aos mancebos e aos velhos... Necessidades e perigos faz cessar entre os humanos, diga quem o experimentou mormente os paduanosSempre gostei desta figura que junta a cultura à simplicidade, a comunicação à inspiração divina.

A nossa salvação reside na nossa própria consciência e na consciência colectiva, na cultura da colaboração, no respeito por nós próprios e pelos outros, na dignidade e no valor intrínseco de cada indivíduo. É essa a mensagem que me fica dessa figura inspiradora de Santo António.

 

 

 

publicado às 21:08


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